domingo, 28 de junio de 2009

Eu amei tanto que quiz fazer fogo. Tentei e desisti, porque não aguentava amar mais. Ficou lá, em algum lugar do passado, mas tenho as imagens do fogo e algumas cicatrizes que mostro orgulhosa. Podia ter perdido partes de mim, mas só me queimei um pouco. E as partes que perdi depois? Em um amor que imaginei sem feridas e que me deixou sem pés e sem unhas nas mãos?
Do teu corpo só sinto falta da temperatura morna. Quase quente, aquecendo a água fria do chuveiro antes de tocar em mim. Não sinto falta do teu sexo, entrando sempre seco. Nem da tua boca breve, que nunca entrava em desespero. Os amores, os ódios e os anos me são lembrados sempre por pequenas passagens. As tuas se resumem nas pernas entrelaçadas debaixo da mesa. Cigarros, cervejas e algo bom prestes a acontecer. Você me quis e me tomou, sem novas passagens. Um dia, ficamos sem sentidos ou datas comemorativas. Vivemos um fim de amor ateu, com pequenas mágoas presentes em cada despertar sem beijos. E o nosso amor, que dizia-se sem rituais, acabou seguindo todos os passos já contados nas histórias vulgares do cotidiano.
Tudo o que posso oferecer é o meu corpo. Para ser usado, lavado, lambido, molhado, mutilado. Virado ao avesso e destrinchado, só o meu corpo. Toma, talvez exista apenas isso.
Preciso de um parceiro de crime. Alguém que mate para que eu não morra de tédio.
Você apareceu quando eu estava atenta. Cansada, marcada, porém atenta. Nos beijamos, abraçamos e estabelecemos uma relação onde o sexo se faz presente. O sexo e os fantasmas. O sexo. E os rancores pequenos que irão mudar nossos rostos e nossas vozes. Passarei a me pintar menos, a sorrir menos e a dormir na hora certa. E você? A culpa será sempre minha, não tenha dúvida.
Nunca recebi flores, nem amores além dos que me eram devidos. Talvez tenha começado a amar tarde demais, e conseguido apenas aqueles que já não se dedicavam com bravura ao amor. Não lembro de ter sido a primeira decepção. Talvez tenha sido o primeiro amor platônico de alguém na primeira série. Retratos de mim, lembranças escondidas de alguém que deve ter dois filhos e viver às voltas com as contas a pagar. Enquanto isso, penso em não perder meu resto de juventude. Corto os meus cabelos e tenho medo de continuar parada, em busca de algo mais ou menos para dividir contas e rancores.